quarta-feira, 20 de agosto de 2025

O imigrante

 


Do nome Berger à memória reencontrada: uma descoberta em 2025

Por Vilma Bieniek

Em 2025, após uma pesquisa aparentemente simples sobre o nome Romain Belgier(Berger), deparei-me com uma revelação inesperada: o sobrenome, muitas vezes registrado em sua forma polonizada, não era exatamente Belgier era Berger,como aparecia em alguns documentos na em  sua forma original. Esse detalhe, que poderia passar despercebido, tornou-se a chave para abrir uma porta que há muito tempo permanecia fechada na minha própria genealogia.

A pista decisiva surgiu no livro Suor em São Mateus, onde encontrei a referência de que Roman Berger havia sido o responsável pela educação de Ludovico Bieniek. Eu já suspeitava que essa informação pudesse servir de ponte, mas foi apenas nesse momento que percebi o alcance de sua importância: a ligação entre Belger e Bieniek não era circunstancial, mas reveladora de uma história de transmissão cultural e familiar.

A partir daí, meu percurso tomou um rumo inesperado. Descobri um artigo de uma professora da Universidade Jaguelônica de Cracóvia, que se debruçava sobre essa rede de relações e nomes em razão de seus estudos sobre Tadeusz Kantor. A leitura me levou a entrar em contato com ela, e dessa troca nasceu não apenas uma amizade, mas também um acesso precioso: a professora compartilhou comigo diversos livros, além de registros e fotografias da família, que me permitiram reconstruir fragmentos de uma memória até então invisível.

Foi então que descobri que Ludovico Bieniek havia sido batizado por seu tio Robert Berger irmão de sua mãe Marianna Josefa Berger, figura central da família e de Roman. O pai de Ludovico, de origem mais camponesa, não tinha o mesmo reconhecimento social, sendo apenas parcialmente aceito dentro da rede familiar. Após sua morte, os filhos de Mariana — entre eles Ludovico —, sua mãe e também Josef Berger, acabaram sob maior influência de Robert.

A relação com esse tio, no entanto, não era simples. Os meninos não mantinham com ele uma convivência afetuosa, e Ludovico encontrava maior referência no irmão mais velho. Ao mesmo tempo, aproximava-se de Roman, o pintor e professor, cuja presença artística e pedagógica deixou marcas profundas.

Robert, por sua vez, era um homem culto, figura de prestígio, que se tornaria o avô de Krzysztof Penderecki. Já Josef Berger, outro tio falecido prematuramente, foi avô de Tadeusz Kantor. Percebi, então, como a trama genealógica que parecia dispersa se entrelaçava de forma surpreendente: nomes que, até então, eu conhecia apenas como vultos da cultura polonesa do século XX, estavam, de fato, ligados à minha própria linhagem.

O eixo da família girava muito em torno de Robert, mas os três irmãos de nome Bieniek acabaram por migrar para o Brasil. A ordem dessa migração ainda não é totalmente clara — ao que tudo indica, o mais velho partiu primeiro, seguido por Ludovico e o mais novo. Já em terras brasileiras, separaram-se, formando famílias distintas e dando origem a trajetórias diversas.

Quando chegaram ao Brasil, o peso de sua origem se transformou em silêncio e reinvenção. No território europeu, seus nomes se entrelaçavam a referências de prestígio e cultura, orbitando em torno de figuras como Robert Bieniek, avô de Penderecki, e Josefberg, avô de Tadeusz Kantor. Mas, em solo brasileiro, a história seguiu outro rumo: perderam sobrenomes, adaptaram identidades e se diluíram em meio a uma sociedade que recebia imigrantes, mas também impunha fronteiras invisíveis.

Ludovico Bieniek, em particular, tornou-se exemplo desse processo. Filho de uma origem parcialmente aceita e marcado por tensões familiares, sua chegada ao Brasil significou também uma espécie de marginalidade dentro da própria linhagem. Aqui, os vínculos de prestígio já não faziam sentido: restava a terra, o trabalho braçal, a necessidade de recomeçar.

Essa diferença de trajetórias talvez explique porque, na memória brasileira, o nome Bieniek se tornou apenas mais um entre tantos sobrenomes de imigrantes, sem conexão direta com os grandes nomes da cultura europeia. No entanto, ao resgatar esse percurso, percebo que há uma espécie de linha subterrânea que une essas duas margens: de um lado, a Polônia e a Galícia, com sua efervescência cultural e suas dores históricas; de outro, o Brasil, espaço de reinvenção e de resistência.

É nesse trânsito que se constrói também a minha herança. Uma herança feita de deslocamentos, de apagamentos, mas também de uma força silenciosa que atravessou o oceano e me chega hoje como revelação. Ao descobrir que minha família esteve ligada, ainda que nas margens, ao universo de Penderecki e Kantor, percebo que não se trata apenas de um dado genealógico: é a confirmação de que a arte, a memória e a sobrevivência se entrelaçam, mesmo quando os nomes se perdem ou se transformam.



Da genealogia à escrita

Descobrir que o sobrenome da minha família se ramifica em histórias que tocam figuras como Tadeusz Kantor e Krzysztof Penderecki foi, ao mesmo tempo, um choque e uma revelação. Não se trata de reivindicar um pertencimento a um cânone artístico europeu, mas de compreender como a memória se constrói: feita de silêncios, apagamentos e margens.

No Brasil, o nome Bieniek se dissolveu entre tantos outros, carregando mais o peso do trabalho e da sobrevivência do que o prestígio das artes. Mas é justamente nesse aparente esquecimento que encontro a força da herança. Pois, ainda que invisíveis, as marcas persistem — nas narrativas que atravessam gerações, na necessidade de criar, na urgência de resistir.

Ao escrever este artigo, percebo que minha trajetória como escritora se inscreve dentro dessa mesma lógica: buscar naquilo que foi deixado de lado — nos nomes distorcidos, nas vidas marginais, nas vozes silenciadas — a matéria da literatura. O que antes parecia apenas fragmento genealógico, hoje se revela como um território simbólico, onde memória e invenção caminham lado a lado.

Assim, a pesquisa sobre o nome Berger, a amizade com a professora Carolina e o acesso a documentos e imagens de família não são apenas achados acadêmicos, mas parte de uma busca maior: reencontrar um fio de identidade que atravessa fronteiras e tempos, e transformá-lo em palavra.

Talvez seja essa, afinal, a função da escrita: dar corpo ao que foi esquecido, para que o silêncio dos antepassados encontre eco no presente.

Vilma de Fátima Bieniek é escritora, roteirista, editora e pesquisadora cultural. Formada em Cinema, atua há mais de vinte anos no campo da criação artística e na reflexão sobre memória, genealogia e narrativas contemporâneas. É fundadora da revista ítalo-brasileira Anitart, dedicada ao diálogo entre literatura, artes visuais e música, e presidente da Associação Jataí de Arte e Cultura, em Curitiba.

Autora do livro Maré (Kotter, 2025) e pela Oiné na Italia,  e com projetos em andamento como O Retorno de Quíron e A Casa dos Espelhos, desenvolve uma escrita que transita entre memória pessoal e investigação histórica, explorando temas como identidade, hereditariedade e a invisibilidade das mulheres na história.

Entre Brasil, Itália , sua trajetória é marcada pela busca de reconectar fragmentos de sua linhagem com a criação artística, estabelecendo pontes entre genealogia e literatura. Além da literatura, também atua na área de projetos culturais, cursos e mostras, promovendo o diálogo entre artistas e comunidades.


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