Entre a memória familiar e o domínio social
Foi em meio a pesquisas genealógicas que me deparei com uma cena que jamais imaginei encontrar. Procurava nomes, datas e registros de batismo para compreender a trajetória dos meus antepassados quando descobri que meu trisavô, Jan Berger, não era natural da Galícia. Ele nascera na Silésia prussiana e, como tantas outras famílias germânicas, fora levado para o território polonês pelo próprio Império Austro-Húngaro, como parte da política de colonização e administração após a Primeira Partição da Polônia.
Ou seja, não chegou à região como camponês local, mas como funcionário imperial, guarda-florestal a serviço dos condes Raczyński, proprietários de vastas terras. Essa condição — de homem enviado pelo império para zelar pelos interesses da nobreza — explicaria o risco que correria durante a grande revolta camponesa de 1846.
Foi nesse contexto que encontrei uma passagem perturbadora: Jan quase foi morto na rabacja galicyjska, a rebelião camponesa. Em Paszczyna, cercado pelos revoltosos, só escapou porque se submeteu à humilhação: obrigado a sentar-se no meio de uma estalagem e imitar um cachorro latindo. Se tivesse resistido, teria sido morto como tantos outros funcionários da aristocracia.
Ele sobreviveu — e dessa sobrevivência nasceram linhas de descendência que se espalharam pela Polônia e pelo Brasil. Entre seus descendentes, primos entre si, estão o compositor Krzysztof Penderecki, o artista Tadeusz Kantor e Ludovico Bieniek, meu avô.
O levante camponês: ódio e manipulação
A rabacja galicyjska foi um massacre. Em fevereiro de 1846, camponeses miseráveis da Galícia se revoltaram contra a szlachta, a aristocracia polonesa, e contra todos os que serviam como seus representantes. Guardas-florestais, arrendatários, administradores — qualquer um que simbolizasse o poder senhorial podia ser executado.
Mas há uma camada mais profunda: essa explosão de ódio foi, em parte, alimentada pelo próprio Império Austríaco. Enquanto a nobreza polonesa tramava uma insurreição pela independência, Viena incentivava os camponeses a se voltarem contra seus senhores. O império não precisava sujar as mãos: bastava estimular ressentimentos para que o povo se destruísse entre si.
Um padrão que se repete: Galícia, Itália, Brasil
O episódio da Galícia não foi único. Em diferentes latitudes, elites e impérios souberam explorar a miséria e canalizar o ódio para proteger seu poder.
Na Itália, no mesmo século XIX, camponeses e cidadãos se levantaram contra os Bourbon de Nápoles e contra a dominação austríaca na Lombardia. As Cinco Jornadas de Milão em 1848 e as revoltas camponesas na Sicília mostraram como a raiva social podia se voltar ora contra os invasores, ora contra os próprios vizinhos, num cenário em que o nacionalismo e a promessa de unificação eram usados para reorganizar hierarquias. Não tão miserável quanto a Galícia, mas ainda assim marcado pela manipulação das divisões.
No Brasil imperial, revoltas como a Cabanagem no Pará (1835–40), a Balaiada no Maranhão (1838–41), a Revolta dos Malês em Salvador (1835) ou a Farroupilha no Rio Grande do Sul (1835–45) revelam o mesmo mecanismo: camadas populares, escravizados, camponeses e soldados pobres insurgiam-se contra a opressão local. Mas quase sempre o ódio era canalizado lateralmente, contra outros pobres ou contra lideranças intermediárias, enquanto o poder central permanecia.
O que une Galícia, Itália e Brasil é a estratégia de dividir para dominar. O império austríaco em 1846, os Bourbon italianos, as elites do Brasil imperial — todos compreenderam que, se o povo fosse fragmentado em lutas internas, jamais teria força para enfrentar quem realmente governava.
A memória como resistência
A memória de Jan Berger latindo como um cachorro não é apenas uma anedota cruel do passado. É um lembrete de como sociedades podem ser levadas a dilacerar-se internamente, enquanto forças maiores permanecem intactas.
Conhecer essa história me fez compreender não só o destino de um antepassado, mas também a lógica da dominação em qualquer tempo: sem consciência coletiva, a divisão e o ódio tornam-se armas nas mãos de quem governa.
Resgatar essa memória é, para mim, um ato de resistência — contra o esquecimento, contra o apagamento e contra a repetição cega de velhos mecanismos de poder.
E também uma forma de reconhecer que, se ele sobreviveu em 1846, foi para que seus descendentes — artistas como Penderecki e Kantor, e também meu avô Ludovico Bieniek — existissem e deixassem marcas na história.
Do passado ao presente
Se na Galícia de 1846 o ódio foi manipulado para destruir a possibilidade de uma Polônia independente, hoje vemos, em diferentes países, o mesmo método ser reciclado. Governos e elites continuam a estimular divisões horizontais — esquerda contra direita, pobres contra pobres, vizinhos contra vizinhos — enquanto a estrutura maior de concentração de poder e riqueza se mantém intocada.
O que mudou foi apenas a superfície: jornais, televisões e redes sociais substituíram as proclamações e as ordens imperiais. Mas a essência permanece: um povo fragmentado é mais fácil de dominar.
Lembrar Jan Berger e a rabacja galicyjska não é apenas um exercício de memória familiar ou histórica. É também um alerta: sempre que o ódio for usado como arma, precisamos perguntar quem, de fato, se beneficia dele.
📚 Referências
FIERICH, Jerzy. Przeszłość wsi powiatu ropczyckiego. Ropczyce, 1936.
SŁOWIŃSKI, Henryk. Z krwawych dni. Wspomnienie z r. 1846. Kraków, 1903.
HAGEN, William W. Galician Peasants, Jews, and the Austrian State, 1772–1889. Harvard University Press, 1980.
KROK, Stanisław. Rabacja 1846 roku. Kraków: Wydawnictwo Literackie, 1984.
ROMANI, Roberto. National Character and Public Spirit in Britain and France, 1750–1914. Cambridge University Press, 2002.
BETHELL, Leslie (org.). História da América Latina: O Brasil do Império à República. São Paulo: Edusp, 2001.
REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos Malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
PINHEIRO, Paulo Sérgio. Cabanagem, Balaiada e outras revoltas sociais. São Paulo: Brasiliense, 1987.

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