segunda-feira, 13 de abril de 2026

REDESCOBRIR AS RAÍZES

 


Um ato de consciência histórica num país que aprendeu a esquecer

Ensaio analítico com referências acadêmicas

De Vilma Bieniek

"A memória é a resistência dos vencidos contra o esquecimento imposto pelos vencedores." — Paul Ricoeur, A Memória, a História, o Esquecimento (2000)

 

1. Introdução: a ironia que não é só ironia

Existe um padrão retórico que reaparece com frequência em contextos de debate sobre identidade e memória no Brasil contemporâneo. Ele se manifesta geralmente sob a forma de ironia: ao ver alguém valorizar a origem de seus antepassados — mencionar um parente ilustre, identificar-se com uma herança étnica, buscar reconstruir uma linhagem familiar —, o interlocutor responde com ceticismo bem-humorado. A mensagem implícita é clara: isso não importa; o que você fez é mais relevante do que quem veio antes de você; falar de ancestrais é vaidade, insegurança ou ilusão.

O problema não está na ironia em si. O problema está em quem a enuncia, em direção a quem, e no que ela obscurece. Quando essa retórica é aplicada indistintamente — sem distinção entre quem sempre teve acesso à própria genealogia e quem a teve sistematicamente destruída —, ela opera não como crítica à vaidade, mas como reforço de um apagamento histórico profundo e politicamente produzido.

Este ensaio parte desse padrão para investigar uma questão mais ampla: por que a busca pelas próprias origens, no contexto brasileiro, é um ato carregado de significado político e não apenas de curiosidade pessoal? Para respondê-la, é necessário compreender o que foi deliberadamente destruído durante séculos de colonização e escravidão, o que esse apagamento produziu nas gerações subsequentes, e por que sua recuperação — mesmo parcial, mesmo imperfeita — tem dimensões que transcendem o indivíduo.

2. O Brasil como projeto de esquecimento: colonialidade e apagamento de identidades

2.1 A formação assimétrica de um povo misturado

O Brasil é frequentemente descrito como um país da mistura. Desde os primeiros cronistas coloniais até a sociologia do século XX, a ideia de que aqui convivem, de forma relativamente harmoniosa, povos de origens diversas tornou-se um dos pilares da identidade nacional. Gilberto Freyre, em Casa-Grande & Senzala (1933), elaborou a tese mais influente desse mito, descrevendo a colonização portuguesa como uma empresa marcada pela plasticidade cultural e pela miscigenação como projeto civilizatório positivo.

Essa interpretação, porém, foi amplamente questionada pela geração sociológica posterior. Florestan Fernandes demonstrou, em A Integração do Negro na Sociedade de Classes (1964), que a miscigenação no Brasil não produziu integração social efetiva, mas uma hierarquia racial disfarçada de democracia. O mestiço não ocupou uma posição intermediária de equilíbrio: em geral, foi empurrado para os estratos inferiores da estrutura social, privado tanto dos privilégios do branco quanto da coesão cultural que grupos étnicos mais homogêneos podiam sustentar.

Abdias do Nascimento foi ainda mais incisivo ao denunciar o que chamou de genocídio cultural do negro brasileiro — um processo que não se deu apenas pela violência física da escravidão, mas pela destruição sistemática de referências culturais, religiosas, linguísticas e familiares (NASCIMENTO, O Genocídio do Negro Brasileiro, 1978). Nesse quadro, a miscigenação funcionou menos como encontro e mais como diluição forçada de identidades que não tinham poder para se preservar.

2.2 O nome como território: a violência simbólica da escravidão

Um dos aspectos menos discutidos do sistema escravista brasileiro é a dimensão onomástica da dominação. Ao chegar ao Brasil, africanos escravizados tinham seus nomes substituídos por nomes portugueses — frequentemente os sobrenomes de seus senhores. Esse ato não era meramente administrativo. Era um mecanismo de ruptura identitária com profundas consequências psicossociais e culturais.

João José Reis, em Rebelião Escrava no Brasil (1986), documenta como a destruição dos vínculos étnicos e linguísticos entre africanos de mesma origem era uma política deliberada dos senhores e da administração colonial: misturar etnias, separar famílias, proibir línguas e rituais eram formas de prevenir solidariedade coletiva e resistência organizada. O nome próprio é, nesse contexto, muito mais que uma marca individual — é um elo com uma genealogia, uma comunidade, uma cosmologia.

Stuart Hall, em A Identidade Cultural na Pós-modernidade (1992), argumenta que a identidade não é uma essência fixa, mas uma construção narrativa que depende de continuidade histórica. Quando essa continuidade é violentamente interrompida — como ocorreu com populações escravizadas —, o sujeito perde não apenas o passado, mas a capacidade de se projetar no futuro a partir de um lugar reconhecível de origem. A ruptura não é biográfica: é ontológica.

2.3 O apagamento indígena: da tribo ao genérico

Se o apagamento das origens africanas se deu prioritariamente pelo mecanismo da imposição nominal e da destruição cultural, o apagamento das identidades indígenas seguiu uma trajetória paralela, com instrumentos distintos. Manuela Carneiro da Cunha, em História dos Índios no Brasil (1992), demonstra como a administração colonial e imperial sistematicamente substituiu identificações étnicas específicas — Tupinambá, Guarani, Yanomami, Kayapó — por categorias genéricas como índio, caboclo ou selvagem.

Essa operação classificatória não era inocente. Ao homogeneizar povos radicalmente diferentes sob uma mesma categoria administrativa, o Estado colonial produzia dois efeitos simultâneos: apagava a diversidade cultural indígena, tornando-a juridicamente invisível; e criava uma categoria residual que funcionava como etapa transitória na narrativa do branqueamento progressivo da nação.

O resultado, no Brasil contemporâneo, é que milhões de brasileiros carregam heranças indígenas sem conseguir identificá-las com qualquer especificidade étnica. Sabem que têm sangue indígena, mas não sabem de qual povo. Conhecem o fenótipo, mas não a cultura. Esse vazio não é acidental — é o produto documentado de séculos de política deliberada de apagamento.

3. O privilégio de esquecer: assimetria histórica e retórica do desapego

3.1 Quem tem o luxo de não precisar lembrar

A retórica que trata a busca pelas origens como vaidade pressupõe, implicitamente, que todos partem da mesma condição em relação ao próprio passado: que lembrar ou esquecer é uma escolha disponível em igual medida para todos. Essa pressuposição é falsa, e sua falsidade tem consequências políticas.

Há populações para as quais o acesso à genealogia nunca foi problemático. A maioria dos países europeus possui registros civis e paroquiais contínuos que remontam ao século XVI ou XVII. As famílias que descendem dessas tradições documentais têm, em princípio, a possibilidade de rastrear suas origens com razoável precisão. Para essas populações, o desapego em relação à genealogia é, de fato, uma escolha estética — uma decisão de não se importar com algo que está disponível.

Para o brasileiro descendente de escravizados ou de povos indígenas colonizados, a situação é estruturalmente diferente. O arquivo não foi preservado: foi destruído, incompleto ou deliberadamente esvaziado de individualidade. Sidney Chalhoub, em Visões da Liberdade (1990), documenta como a burocracia escravista brasileira tratava os escravizados como propriedade nos registros oficiais, não como sujeitos com nome, família e história. Esse apagamento documental não é um acidente de conservação — é o resultado de uma política de invisibilização sistemática.

Nesse contexto, equiparar o desapego voluntário de quem sempre teve acesso ao seu arquivo com a impossibilidade de acesso de quem o teve destruído é cometer o que, num contexto argumentativo rigoroso, seria chamado de falácia de equivalência: tratar como iguais situações estruturalmente distintas.

3.2 A ironia como mecanismo de reforço do apagamento

Pierre Bourdieu conceituou como violência simbólica aquela que se exerce com a cumplicidade dos próprios dominados, que a percebem como natural, inevitável ou até humorística (BOURDIEU, O Poder Simbólico, 1989). A ironia aplicada à busca por origens pode funcionar exatamente dessa forma: ao ridicularizar o gesto de quem busca reconstruir uma genealogia apagada, ela naturaliza o apagamento como condição normal — como se a ausência de memória fosse não uma ferida, mas uma virtude.

Frantz Fanon, em Peles Negras, Máscaras Brancas (1952), analisou como o colonizado é frequentemente objeto do riso do colonizador e como esse riso não é neutro, mas funciona como instrumento de desumanização. O que Fanon observou no contexto da colonização francesa na Argélia é estruturalmente análogo ao que se observa em qualquer contexto onde a memória de grupos subalternizados é tratada como menos séria, menos legítima, mais disponível ao gracejo do que a memória dos grupos dominantes.

O problema, portanto, não é a ironia como forma de expressão. É a assimetria que ela pode reproduzir quando aplicada sem consciência do contexto histórico em que opera.

3.3 Colonialidade do saber e hierarquia das memórias

Walter Mignolo, em Local Histories/Global Designs (2000), cunhou o conceito de colonialidade do saber para descrever como o pensamento europeu se estabeleceu, após a conquista colonial, não apenas como dominante, mas como universal — como se suas categorias, seus valores e seus critérios de relevância fossem válidos para toda a humanidade. Essa colonialidade não se encerrou com o fim formal do colonialismo: ela persiste nas instituições, nos currículos, nas formas de produção do conhecimento e nos padrões de avaliação do que é ou não é digno de atenção.

Uma das manifestações dessa colonialidade é precisamente a hierarquia das memórias: a ideia de que certas formas de rememoração são legítimas e outras são superstição, sentimentalismo ou vaidade. A genealogia europeia documentada em cartórios e bibliotecas é tratada como fato histórico. A memória oral indígena transmitida por gerações é tratada como lenda. A reconstituição de linhagens africanas a partir de fragmentos dispersos é tratada como projeto identitário duvidoso. Essa hierarquia não é neutra — ela reflete e reproduz relações de poder.

4. A internalização do apagamento: o brasileiro que não consegue acessar sua origem

4.1 O esquecimento como norma internalizada

Um dos fenômenos mais insidiosos do apagamento histórico é que, com o tempo, ele deixa de precisar de coerção externa para se perpetuar. A população apagada passa a reproduzir, ela mesma, os valores e as práticas que a apagam. No Brasil, isso se manifesta de formas múltiplas: na vergonha de traços físicos associados à ancestralidade africana ou indígena; no desconhecimento orgulhoso das próprias origens; e, não raramente, na ridicularização de quem busca conhecê-las.

Lélia Gonzalez identificou esse fenômeno com precisão ao analisar o que chamou de racismo por denegação — a forma específica como o racismo opera no Brasil, não pela segregação explícita, mas pela assimilação forçada acompanhada do apagamento das marcas culturais que distinguem os grupos dominados (GONZALEZ, Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira, 1984). O mestiço brasileiro, nesse quadro, é frequentemente incentivado a se identificar com a parte europeia de sua herança e a tratar as demais como irrelevantes ou secundárias.

Esse processo não é percebido como violência pelos que o sofrem — e é exatamente nisso que reside sua eficácia. Quem foi convencido de que sua origem não importa não sente que foi roubado de algo. Sente apenas que é moderno, desapegado, racional. A ausência de memória é vivida como liberdade, não como perda.

4.2 O brasileiro sem arquivo

Há uma dimensão prática, frequentemente ignorada no debate sobre identidade, que merece atenção específica: o problema do arquivo. Enquanto a maioria dos europeus pode, com algum esforço, rastrear sua genealogia por séculos através de registros paroquiais, cartoriais e notariais, o brasileiro descendente de escravizados frequentemente se depara com um muro no século XIX — o ponto onde os registros simplesmente não existem, ou registram apenas o nome do senhor, não o da família escravizada.

O historiador Sidney Chalhoub, em Visões da Liberdade (1990), documenta como a burocracia escravista brasileira sistematicamente apagava a individualidade dos escravizados nos registros oficiais, tratando-os como propriedade e não como sujeitos com história. Esse apagamento documental não é um acidente de conservação — é o resultado de uma política de invisibilização.

Para o descendente de indígenas, o problema é análogo: os registros missionários e coloniais raramente preservaram a especificidade étnica com precisão; quando o fizeram, frequentemente traduziram nomes e categorias para o português de forma que tornou impossível o rastreamento posterior. O brasileiro que diz ter sangue indígena mas não sabe de qual povo não é descuidado — é vítima de um sistema que deliberadamente destruiu os instrumentos que permitiriam essa identificação.

4.3 Identidade, trauma histórico e saúde coletiva

A pesquisa contemporânea em psicologia social e saúde mental tem documentado extensamente as consequências do que Maria Yellow Horse Brave Heart conceituou como trauma histórico — o acúmulo intergeracional de experiências traumáticas sofridas por grupos específicos e transmitido culturalmente através de gerações (BRAVE HEART, The Historical Trauma Response Among Natives, 2003). Comunidades indígenas, afro-americanas e outros grupos que sofreram violência colonial ou escravização apresentam padrões de luto coletivo, autoestima comprometida e dificuldade de construção de projetos coletivos que podem ser diretamente vinculados a esse legado.

No contexto brasileiro, pesquisadores como Isildinha Baptista Nogueira demonstraram que a negação da identidade negra — frequentemente manifestada pelo desejo de branqueamento e pela rejeição das origens africanas — está associada a sofrimento psíquico significativo (NOGUEIRA, Significações do Corpo Negro, 1998). Nesse quadro, a busca pelas próprias origens não é um gesto de vaidade genealógica, mas um trabalho psíquico de reconstituição da integridade identitária.

Paul Ricoeur, ao elaborar o conceito de identidade narrativa, argumentou que o sujeito se constitui como tal na medida em que é capaz de construir uma narrativa coerente de si mesmo ao longo do tempo — uma narrativa que integre passado, presente e projeção futura (RICOEUR, Soi-même comme un autre, 1990). Quando o passado foi violentamente apagado, essa narrativa fica truncada. Recuperar as origens é, portanto, um ato de reconstituição da condição de sujeito — não um capricho, mas uma necessidade estrutural de quem foi privado do fio condutor de sua própria história.

5. Memória genealógica como ato político: para além da vaidade

5.1 A reconstrução de pontes interrompidas

Diante desse quadro, a busca pelas próprias origens assume uma dimensão que transcende a curiosidade individual. Ela é, nas palavras de Michael Pollak, um trabalho de enquadramento da memória — a construção ativa de narrativas que resistem ao esquecimento oficial e restituem voz a grupos silenciados (POLLAK, Memória, Esquecimento, Silêncio, 1989). Esse trabalho é simultaneamente pessoal e político, porque os apagamentos que atinge são simultaneamente pessoais e políticos.

Saidiya Hartman, em Lose Your Mother (2007), narrou sua própria jornada de busca pelas origens africanas de sua família, confrontando-se com o silêncio dos arquivos da escravidão. Sua conclusão é que a impossibilidade de reconstituição completa não invalida a busca — pelo contrário, torna-a mais urgente, porque é precisamente nesse esforço de recuperação que se afirma a humanidade negada pelo sistema escravista. Buscar o nome do bisavô apagado é recusar que ele tenha sido apenas propriedade.

No Brasil, movimentos como o das comunidades quilombolas — que buscam não apenas o reconhecimento territorial, mas a reconstituição de memórias culturais e genealógicas — exemplificam como a recuperação de origens pode funcionar como fundamento de projetos coletivos de dignidade e autonomia. A memória não é aqui nostalgia: é ferramenta política.

5.2 Contra a hierarquia das origens

É necessário ser preciso sobre o que está sendo defendido: a valorização das raízes africanas e indígenas não implica, em si mesma, a desvalorização da herança europeia. O problema não é a herança europeia — é a hierarquia que durante séculos exaltou apenas essa herança e tratou as demais como resíduos a serem superados na marcha do progresso civilizatório.

O que se propõe não é uma inversão dessa hierarquia, mas sua dissolução. Cada componente da formação brasileira — europeu, africano, indígena, e todas as sínteses que produziram — tem valor histórico e cultural próprio. A diferença crucial é que, enquanto a herança europeia sempre teve seus mecanismos institucionais de preservação e valorização, as demais precisaram e ainda precisam ser ativamente recuperadas contra a corrente do esquecimento estrutural.

Nesse sentido, invocar um ancestral ilustre — seja ele um cientista, um guerreiro, um líder comunitário, um artista — não é necessariamente vaidade. Para quem pertence a uma linhagem cujos nomes foram sistematicamente apagados dos registros, nomear um ancestral que sobreviveu ao apagamento é um ato de afirmação. É dizer: minha família existiu; minha história não começa no vazio.

5.3 O valor do legado intelectual e científico

Há ainda uma dimensão específica que merece atenção: o papel dos legados intelectuais e científicos na construção de identidades coletivas. Em sociedades onde o acesso ao conhecimento foi historicamente restrito por marcadores de raça, gênero e classe, a existência de figuras que romperam essas barreiras tem um significado que ultrapassa a biografia individual.

Quando uma comunidade aponta para um de seus membros que alcançou reconhecimento científico, acadêmico ou artístico, esse gesto não é necessariamente uma forma de hierarquizar pessoas. É uma forma de dizer: nós também produzimos conhecimento; nós também estamos presentes na história que a sociedade considera digna de registro. Em contextos onde essa presença foi sistematicamente negada ou invisibilizada, afirmá-la tem o caráter de uma reivindicação.

A socióloga Patricia Hill Collins, em Black Feminist Thought (1990), argumentou que a recuperação de intelectuais e figuras de referência dentro de comunidades marginalizadas funciona como contra-narrativa — uma forma de resistir à representação hegemônica que nega a essas comunidades a capacidade de produzir pensamento, ciência e cultura. Nesse quadro, valorizar um ancestral não é regressão ao passado: é construção de um presente em que a herança de quem foi apagado é finalmente reconhecida.

6. Conclusão: saber de onde se vem como condição de dignidade

Este ensaio partiu de um padrão retórico comum — a ironia aplicada à busca por origens — para investigar suas implicações num contexto histórico específico: o do Brasil, país construído sobre o apagamento sistemático das identidades de suas populações africanas e indígenas.

Ao longo da análise, procurou-se demonstrar que o apagamento dessas origens não foi acidental, mas sistemático — uma política deliberada de destruição de identidades que serviu aos interesses do sistema colonial e escravista, e cujas consequências se estendem até o presente na forma de arquivos destruídos, genealogias truncadas e memórias coletivas fragmentadas.

Demonstrou-se também que a busca pelas próprias origens, nesse contexto, não é vaidade genealógica — é um trabalho de reconstituição identitária com dimensões psíquicas, políticas e culturais reconhecidas pela pesquisa acadêmica em múltiplas disciplinas. E que a retórica que equipara essa busca ao desapego moderno comete um erro de análise ao tratar como equivalentes situações estruturalmente distintas: a de quem escolhe não consultar um arquivo intacto e a de quem busca reconstruir um arquivo deliberadamente destruído.

Por fim, argumentou-se que a internalização do apagamento — o fenômeno pelo qual o próprio brasileiro aprende a não valorizar suas origens não-europeias — é o desdobramento mais profundo e mais difícil de combater desse processo histórico, porque não precisa de coerção externa para se reproduzir.

Saber de onde se vem não é um luxo. Para quem sempre teve seus arquivos intactos, para quem nunca precisou reconstituir o que ninguém destruiu, pode parecer que sim. Mas para quem carrega, no próprio sobrenome, a marca da dominação de um senhor que seus ancestrais jamais escolheram, recuperar a origem é um ato de resistência.

E afirmar que essa resistência importa não é romantismo. É a conclusão a que chegam décadas de pesquisa histórica, sociológica, antropológica e psicológica sobre o que acontece com populações privadas do direito à própria memória.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Lisboa: Difel, 1989.

BRAVE HEART, Maria Yellow Horse. The Historical Trauma Response Among Natives and Its Relationship with Substance Abuse. Journal of Psychoactive Drugs, v. 35, n. 1, 2003.

CHALHOUB, Sidney. Visões da Liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

COLLINS, Patricia Hill. Black Feminist Thought: Knowledge, Consciousness, and the Politics of Empowerment. Nova York: Routledge, 1990.

CUNHA, Manuela Carneiro da (org.). História dos Índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras / FAPESP / SMC, 1992.

FANON, Frantz. Peles Negras, Máscaras Brancas. Salvador: EdUFBA, 2008 [orig. 1952].

FERNANDES, Florestan. A Integração do Negro na Sociedade de Classes. São Paulo: Dominus/EDUSP, 1964.

FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. Rio de Janeiro: José Olympio, 1933.

GONZALEZ, Lélia. Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, ANPOCS, 1984.

HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1992.

HARTMAN, Saidiya. Lose Your Mother: A Journey Along the Atlantic Slave Route. Nova York: Farrar, Straus and Giroux, 2007.

MIGNOLO, Walter. Local Histories/Global Designs: Coloniality, Subaltern Knowledges and Border Thinking. Princeton: Princeton University Press, 2000.

NASCIMENTO, Abdias do. O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

NOGUEIRA, Isildinha Baptista. Significações do Corpo Negro. Tese de Doutorado, USP, 1998.

POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento, Silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, 1989.

REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil: a história do levante dos malês (1835). São Paulo: Brasiliense, 1986.

RICOEUR, Paul. Soi-même comme un autre. Paris: Seuil, 1990.

RICOEUR, Paul. A Memória, a História, o Esquecimento. Campinas: Editora Unicamp, 2000.


quarta-feira, 20 de agosto de 2025

O imigrante

 


Do nome Berger à memória reencontrada: uma descoberta em 2025

Por Vilma Bieniek

Em 2025, após uma pesquisa aparentemente simples sobre o nome Romain Belgier(Berger), deparei-me com uma revelação inesperada: o sobrenome, muitas vezes registrado em sua forma polonizada, não era exatamente Belgier era Berger,como aparecia em alguns documentos na em  sua forma original. Esse detalhe, que poderia passar despercebido, tornou-se a chave para abrir uma porta que há muito tempo permanecia fechada na minha própria genealogia.

A pista decisiva surgiu no livro Suor em São Mateus, onde encontrei a referência de que Roman Berger havia sido o responsável pela educação de Ludovico Bieniek. Eu já suspeitava que essa informação pudesse servir de ponte, mas foi apenas nesse momento que percebi o alcance de sua importância: a ligação entre Belger e Bieniek não era circunstancial, mas reveladora de uma história de transmissão cultural e familiar.

A partir daí, meu percurso tomou um rumo inesperado. Descobri um artigo de uma professora da Universidade Jaguelônica de Cracóvia, que se debruçava sobre essa rede de relações e nomes em razão de seus estudos sobre Tadeusz Kantor. A leitura me levou a entrar em contato com ela, e dessa troca nasceu não apenas uma amizade, mas também um acesso precioso: a professora compartilhou comigo diversos livros, além de registros e fotografias da família, que me permitiram reconstruir fragmentos de uma memória até então invisível.

Foi então que descobri que Ludovico Bieniek havia sido batizado por seu tio Robert Berger irmão de sua mãe Marianna Josefa Berger, figura central da família e de Roman. O pai de Ludovico, de origem mais camponesa, não tinha o mesmo reconhecimento social, sendo apenas parcialmente aceito dentro da rede familiar. Após sua morte, os filhos de Mariana — entre eles Ludovico —, sua mãe e também Josef Berger, acabaram sob maior influência de Robert.

A relação com esse tio, no entanto, não era simples. Os meninos não mantinham com ele uma convivência afetuosa, e Ludovico encontrava maior referência no irmão mais velho. Ao mesmo tempo, aproximava-se de Roman, o pintor e professor, cuja presença artística e pedagógica deixou marcas profundas.

Robert, por sua vez, era um homem culto, figura de prestígio, que se tornaria o avô de Krzysztof Penderecki. Já Josef Berger, outro tio falecido prematuramente, foi avô de Tadeusz Kantor. Percebi, então, como a trama genealógica que parecia dispersa se entrelaçava de forma surpreendente: nomes que, até então, eu conhecia apenas como vultos da cultura polonesa do século XX, estavam, de fato, ligados à minha própria linhagem.

O eixo da família girava muito em torno de Robert, mas os três irmãos de nome Bieniek acabaram por migrar para o Brasil. A ordem dessa migração ainda não é totalmente clara — ao que tudo indica, o mais velho partiu primeiro, seguido por Ludovico e o mais novo. Já em terras brasileiras, separaram-se, formando famílias distintas e dando origem a trajetórias diversas.

Quando chegaram ao Brasil, o peso de sua origem se transformou em silêncio e reinvenção. No território europeu, seus nomes se entrelaçavam a referências de prestígio e cultura, orbitando em torno de figuras como Robert Bieniek, avô de Penderecki, e Josefberg, avô de Tadeusz Kantor. Mas, em solo brasileiro, a história seguiu outro rumo: perderam sobrenomes, adaptaram identidades e se diluíram em meio a uma sociedade que recebia imigrantes, mas também impunha fronteiras invisíveis.

Ludovico Bieniek, em particular, tornou-se exemplo desse processo. Filho de uma origem parcialmente aceita e marcado por tensões familiares, sua chegada ao Brasil significou também uma espécie de marginalidade dentro da própria linhagem. Aqui, os vínculos de prestígio já não faziam sentido: restava a terra, o trabalho braçal, a necessidade de recomeçar.

Essa diferença de trajetórias talvez explique porque, na memória brasileira, o nome Bieniek se tornou apenas mais um entre tantos sobrenomes de imigrantes, sem conexão direta com os grandes nomes da cultura europeia. No entanto, ao resgatar esse percurso, percebo que há uma espécie de linha subterrânea que une essas duas margens: de um lado, a Polônia e a Galícia, com sua efervescência cultural e suas dores históricas; de outro, o Brasil, espaço de reinvenção e de resistência.

É nesse trânsito que se constrói também a minha herança. Uma herança feita de deslocamentos, de apagamentos, mas também de uma força silenciosa que atravessou o oceano e me chega hoje como revelação. Ao descobrir que minha família esteve ligada, ainda que nas margens, ao universo de Penderecki e Kantor, percebo que não se trata apenas de um dado genealógico: é a confirmação de que a arte, a memória e a sobrevivência se entrelaçam, mesmo quando os nomes se perdem ou se transformam.



Da genealogia à escrita

Descobrir que o sobrenome da minha família se ramifica em histórias que tocam figuras como Tadeusz Kantor e Krzysztof Penderecki foi, ao mesmo tempo, um choque e uma revelação. Não se trata de reivindicar um pertencimento a um cânone artístico europeu, mas de compreender como a memória se constrói: feita de silêncios, apagamentos e margens.

No Brasil, o nome Bieniek se dissolveu entre tantos outros, carregando mais o peso do trabalho e da sobrevivência do que o prestígio das artes. Mas é justamente nesse aparente esquecimento que encontro a força da herança. Pois, ainda que invisíveis, as marcas persistem — nas narrativas que atravessam gerações, na necessidade de criar, na urgência de resistir.

Ao escrever este artigo, percebo que minha trajetória como escritora se inscreve dentro dessa mesma lógica: buscar naquilo que foi deixado de lado — nos nomes distorcidos, nas vidas marginais, nas vozes silenciadas — a matéria da literatura. O que antes parecia apenas fragmento genealógico, hoje se revela como um território simbólico, onde memória e invenção caminham lado a lado.

Assim, a pesquisa sobre o nome Berger, a amizade com a professora Carolina e o acesso a documentos e imagens de família não são apenas achados acadêmicos, mas parte de uma busca maior: reencontrar um fio de identidade que atravessa fronteiras e tempos, e transformá-lo em palavra.

Talvez seja essa, afinal, a função da escrita: dar corpo ao que foi esquecido, para que o silêncio dos antepassados encontre eco no presente.

Vilma de Fátima Bieniek é escritora, roteirista, editora e pesquisadora cultural. Formada em Cinema, atua há mais de vinte anos no campo da criação artística e na reflexão sobre memória, genealogia e narrativas contemporâneas. É fundadora da revista ítalo-brasileira Anitart, dedicada ao diálogo entre literatura, artes visuais e música, e presidente da Associação Jataí de Arte e Cultura, em Curitiba.

Autora do livro Maré (Kotter, 2025) e pela Oiné na Italia,  e com projetos em andamento como O Retorno de Quíron e A Casa dos Espelhos, desenvolve uma escrita que transita entre memória pessoal e investigação histórica, explorando temas como identidade, hereditariedade e a invisibilidade das mulheres na história.

Entre Brasil, Itália , sua trajetória é marcada pela busca de reconectar fragmentos de sua linhagem com a criação artística, estabelecendo pontes entre genealogia e literatura. Além da literatura, também atua na área de projetos culturais, cursos e mostras, promovendo o diálogo entre artistas e comunidades.


 




Entre a memória familiar e o domínio social

De Vilma Bieniek

Foi em meio a pesquisas genealógicas que me deparei com uma cena que jamais imaginei encontrar. Procurava nomes, datas e registros de batismo para compreender a trajetória dos meus antepassados quando descobri que meu trisavô, Jan Berger, não era natural da Galícia. Ele nascera na Silésia prussiana e, como tantas outras famílias germânicas, fora levado para o território polonês pelo próprio Império Austro-Húngaro, como parte da política de colonização e administração após a Primeira Partição da Polônia.

Ou seja, não chegou à região como camponês local, mas como funcionário imperial, guarda-florestal a serviço dos condes Raczyński, proprietários de vastas terras. Essa condição — de homem enviado pelo império para zelar pelos interesses da nobreza — explicaria o risco que correria durante a grande revolta camponesa de 1846.






Foi nesse contexto que encontrei uma passagem perturbadora: Jan quase foi morto na rabacja galicyjska, a rebelião camponesa. Em Paszczyna, cercado pelos revoltosos, só escapou porque se submeteu à humilhação: obrigado a sentar-se no meio de uma estalagem e imitar um cachorro latindo. Se tivesse resistido, teria sido morto como tantos outros funcionários da aristocracia.

Ele sobreviveu — e dessa sobrevivência nasceram linhas de descendência que se espalharam pela Polônia e pelo Brasil. Entre seus descendentes, primos entre si, estão o compositor Krzysztof Penderecki, o artista Tadeusz Kantor e Ludovico Bieniek, meu avô.




Jan Berger e familia
Imagens  restauradas por IA


O levante camponês: ódio e manipulação

rabacja galicyjska foi um massacre. Em fevereiro de 1846, camponeses miseráveis da Galícia se revoltaram contra a szlachta, a aristocracia polonesa, e contra todos os que serviam como seus representantes. Guardas-florestais, arrendatários, administradores — qualquer um que simbolizasse o poder senhorial podia ser executado.

Mas há uma camada mais profunda: essa explosão de ódio foi, em parte, alimentada pelo próprio Império Austríaco. Enquanto a nobreza polonesa tramava uma insurreição pela independência, Viena incentivava os camponeses a se voltarem contra seus senhores. O império não precisava sujar as mãos: bastava estimular ressentimentos para que o povo se destruísse entre si.

Um padrão que se repete: Galícia, Itália, Brasil

O episódio da Galícia não foi único. Em diferentes latitudes, elites e impérios souberam explorar a miséria e canalizar o ódio para proteger seu poder.

Na Itália, no mesmo século XIX, camponeses e cidadãos se levantaram contra os Bourbon de Nápoles e contra a dominação austríaca na Lombardia. As Cinco Jornadas de Milão em 1848 e as revoltas camponesas na Sicília mostraram como a raiva social podia se voltar ora contra os invasores, ora contra os próprios vizinhos, num cenário em que o nacionalismo e a promessa de unificação eram usados para reorganizar hierarquias. Não tão miserável quanto a Galícia, mas ainda assim marcado pela manipulação das divisões.

No Brasil imperial, revoltas como a Cabanagem no Pará (1835–40), a Balaiada no Maranhão (1838–41), a Revolta dos Malês em Salvador (1835) ou a Farroupilha no Rio Grande do Sul (1835–45) revelam o mesmo mecanismo: camadas populares, escravizados, camponeses e soldados pobres insurgiam-se contra a opressão local. Mas quase sempre o ódio era canalizado lateralmente, contra outros pobres ou contra lideranças intermediárias, enquanto o poder central permanecia.

O que une Galícia, Itália e Brasil é a estratégia de dividir para dominar. O império austríaco em 1846, os Bourbon italianos, as elites do Brasil imperial — todos compreenderam que, se o povo fosse fragmentado em lutas internas, jamais teria força para enfrentar quem realmente governava.

A memória como resistência

A memória de Jan Berger latindo como um cachorro não é apenas uma anedota cruel do passado. É um lembrete de como sociedades podem ser levadas a dilacerar-se internamente, enquanto forças maiores permanecem intactas.

Conhecer essa história me fez compreender não só o destino de um antepassado, mas também a lógica da dominação em qualquer tempo: sem consciência coletiva, a divisão e o ódio tornam-se armas nas mãos de quem governa.

Resgatar essa memória é, para mim, um ato de resistência — contra o esquecimento, contra o apagamento e contra a repetição cega de velhos mecanismos de poder.
E também uma forma de reconhecer que, se ele sobreviveu em 1846, foi para que seus descendentes — artistas como Penderecki e Kantor, e também meu avô Ludovico Bieniek — existissem e deixassem marcas na história.

Do passado ao presente

Se na Galícia de 1846 o ódio foi manipulado para destruir a possibilidade de uma Polônia independente, hoje vemos, em diferentes países, o mesmo método ser reciclado. Governos e elites continuam a estimular divisões horizontais — esquerda contra direita, pobres contra pobres, vizinhos contra vizinhos — enquanto a estrutura maior de concentração de poder e riqueza se mantém intocada.

O que mudou foi apenas a superfície: jornais, televisões e redes sociais substituíram as proclamações e as ordens imperiais. Mas a essência permanece: um povo fragmentado é mais fácil de dominar.

Lembrar Jan Berger e a rabacja galicyjska não é apenas um exercício de memória familiar ou histórica. É também um alerta: sempre que o ódio for usado como arma, precisamos perguntar quem, de fato, se beneficia dele.

📚 Referências

  • FIERICH, Jerzy. Przeszłość wsi powiatu ropczyckiego. Ropczyce, 1936.

  • SŁOWIŃSKI, Henryk. Z krwawych dni. Wspomnienie z r. 1846. Kraków, 1903.

  • HAGEN, William W. Galician Peasants, Jews, and the Austrian State, 1772–1889. Harvard University Press, 1980.

  • KROK, Stanisław. Rabacja 1846 roku. Kraków: Wydawnictwo Literackie, 1984.

  • ROMANI, Roberto. National Character and Public Spirit in Britain and France, 1750–1914. Cambridge University Press, 2002.

  • BETHELL, Leslie (org.). História da América Latina: O Brasil do Império à República. São Paulo: Edusp, 2001.

  • REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos Malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

  • PINHEIRO, Paulo Sérgio. Cabanagem, Balaiada e outras revoltas sociais. São Paulo: Brasiliense, 1987.

sábado, 18 de abril de 2009

Auto retrato

http://www.pr.gov.br/maa/memorias/sum_ludovico_bienick.shtml

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Ludwik Robert Bieniek (Ludovico Bieniek)


Entrevista de Ludovico Bieniek para o Livro " Suor em São Mateus" em 1973.


Nascido na Polônia, em Sacz(Lvov)*, em 1893 *. Obteve educação superior em Tarnow. Veio ao Brasil em 1908. Estabeleceu-se em Curitiba e ingressou na Escola de Pintura de Alfredo Andersen.
- Naqueles tempos coloniais, quantos alunos podia haver na academia de Andersen?
- Havia o Lange, Shereder, Ansueto, Kop, a Amélia de Barros. As aulas realizavam-se três vezes por semana. duas horas por dia. Para me manter, eu trabalhava no "Jornal Polonês" em Curitiba. A minha especialidade era a tradução de artigos alemães do jornal " A Bússola". Eu tocava violino no conjunto Czarniecki na Sociedade Kosciuszko. Apresentava-me na Catedral como baixo solista.
(influência)Meu tio Roman Belgier* foi aluno de Jan Matejko em Cracóvia.

Jan Matejko
Quando Vicente Machado era governador da Província do Paraná, apoiava as artes e repetia seu lema batido: "Necessitamos de pessoas de cultura, para civilizar está nação selvagem".
Seu sucessor, Tourinho, tinha uma outra visão das artes e teria dito aos que o cercavam:"Não é tempo de arte, mas de esforço físico"
A esposa do senhor Andersen, dona Maria, aconselhou-me a abandonar a cidade de Curitiba, porque aí não se podia viver da arte.
Recebi um emprego do governo, como agrimensor, nas montanhas de Porto de Cima(construção da estrada da graciosa). O engenheiro Albino Watroba dirigia os trabalhos. Graças à sua intervenção, recebemos um bom pagamento, embora atrasado. Terminadas as medições, casei-me com Anastácia Slominski, já nascida no Paraná, e dirigíamos uma loja em Porto de Cima...aí eu tinha suficientes temas para a pintura...Comprei uma propriedade de cinco alqueires em Santa Candida. Vendi e comprei sete alqueires em Campina Grande. Mais tarde mudei para Três Barras aonde trabalhei na Companhia Lumbery. Em Antonio Olinto, comprei em Avencal 20 alqueires de terra po oito mil contos. Nas terras improdutivas dessa propriedade plantei dois mil pinheiros. Esperei 40 anos até que crescessem. Em 1971 vendi a propriedade juntamente com o reflorestamento por 80 mil cruzeiros. Por 15 comprei uma casinha em São Mateus e o resto entreguei a juros para me manter. Verificou-se que a mesma TOPEL, que comprou de mim por 80 mil, vendeu a uma outra firma por 120 mil.
O artista pintor reside agora solitário na tranquila baixada do Iguaçu, ao lado das águas que correm preguiçosamente. Reside perto do lugar onde desembarcaram os primeiros imigrantes, na assim chamada " Velha São Mateus". O artista mora sozinho, porque já nos primeiros meses da sua vinda para cá faleceu sua esposa. Tem duas filhas e dois filhos, adultos e casados.
O senhor Ludovico Bieniek conta com 90 anos de vida difícil - e fomos encontra-lo pintando um quadro.
O artista possui uma disposição impecavelmente elástica e diz:
- Estive dois dias indisposto fisicamente e perdendo o tempo. Senti saudades do pincel, porque quando pinto sinto a alegria de viver.
Patrimônio cultural do artista: 500 retratos a óleo, 62 paisagens de temática brasileira.
O artista estava justamente lançando na tela o que os homens insensatos acabaram destruindo. Vemos a mata virgem, carretões com toras tirados por bois, as estradas primitivas, a erva-mate, sua colheita, etc.
O senhor Ludovico Roberto Bieniek deve ser a única personalidade no Brasil que sem decretos do governo, mas por iniciativa própria, reflorestou as partes improdutivas da sua terra e esperou 40 anos que os pinheiros crescessem, para que fossem o amparo em sua vida no momento em que a arte da pintura não lhe desse o pão.
A maior inquietação que atormentava o artista é: o que vai acontecer com as telas após a sua morte?....
Por outro lado o senhor Bieniek demonstra profunda tranquilidade em seu olhar e diz com calma:
- Quem tem 90 anos tem que pensar na partida....Mas a quem eu poderia transmitir o patrimônio cultrual?...

Entrevista concedida à Romão Wachowicz

*Na entrevista, há alguns equívocos que podem ter ocorrido durante o processo de impressão do livro ou, ainda, em função de falhas na coleta das informações — compreensíveis diante da idade avançada de Ludwik à época do relato. Um desses pontos diz respeito ao seu nome de batismo.

Ludwik Robert Bieniek nasceu em Jodłowa, uma vila do condado de Dębica, na voivodia da Subcarpácia, no sudeste da Polônia, no ano de 1883.